Tenho lido muitas análises dizendo que a esquerda falhou porque não entendeu a dinâmica das redes sociais. Considero isso uma meia verdade. As redes são um sintoma, e a causa está mais embaixo. Também duvido que alguém vença uma disputa estratégica copiando o adversário e jogando na arena que ele domina.

Essa arena tem dono. Ela é organizada por algoritmos que servem às grandes empresas de tecnologia, as big techs, e essas empresas interferem cada vez mais na geopolítica, de acordo com os próprios interesses.

Este texto é uma reflexão sobre o que essas tecnologias tomaram de nós: tempo, atenção, produtividade e convivência. Elas nos colocaram em bolhas e nos afastaram dos nossos pares. Ficou comprovado que “quem lacra, lucra”: fatura engajamento, fatura eleições e se beneficia da polarização. Há dez anos, isso seria o roteiro de uma série de ficção científica ou de um programa humorístico de mau gosto.

A sociedade está falhando em cuidar das pessoas

A falha é da sociedade inteira, de todos os campos políticos, e aparece em todas as idades:

A tese: a virada acontece fora das telas

O contramovimento precisa acontecer em outra arena: a vida real, fora das redes e das telas.

As ferramentas já existem

A Constituição de 1988 garante a liberdade de associação (art. 5º, incisos XVII a XXI). Em 31 de julho de 2014, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei 13.019, o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC). Essa lei define como associações e outras organizações sem fins lucrativos fazem parcerias com o poder público, recebem recursos e prestam contas.

Há uma legislação vasta sobre as Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Onde o poder público falha, nós podemos aprender a cuidar das nossas comunidades, dos nossos bairros e dos nossos municípios.

Oportunidades não faltam:

O trabalho é maior que um post viral

Os desafios são muito maiores do que postar algo, viralizar e monetizar com os algoritmos. Nesse caminho, quem fica com o valor é a big tech: ela fatura ordens de grandeza a mais do que o mais engajador dos influenciadores, e vende um sonho de enriquecimento que fica fora do alcance de quase todos os que tentam.

Uma associação de verdade precisa de gestão administrativa e de logística:

Três caminhos para os recursos

  1. Associados. Quem participa contribui com uma mensalidade, prevista no estatuto.
  2. Doações e patrocínio do próprio bairro. O comércio, as empresas e os moradores que acreditam no trabalho apoiam a associação.
  3. Doações destinadas pelo Imposto de Renda. A pessoa física que faz a declaração completa pode destinar parte do imposto devido a fundos e projetos de interesse social:
    • até 6% do imposto, somados, para:
      • os Fundos da Criança e do Adolescente;
      • os Fundos da Pessoa Idosa;
      • a Lei Rouanet (cultura);
      • o audiovisual;
    • até 7% quando entra também a Lei de Incentivo ao Esporte.

O terceiro caminho tem um potencial enorme. Para quem doa, o custo é zero: é imposto que a pessoa já pagaria, redirecionado para um fundo do seu município ou para um projeto aprovado. Esse dinheiro forma um orçamento para iniciativas populares, menos sujeito à inércia e às ineficiências dos governos. Os conselhos municipais distribuem os recursos dos fundos às OSCs por meio de editais.

Esse potencial ainda é pouco usado. Segundo levantamento divulgado em agosto de 2026 com base em dados da Receita Federal, as destinações aos fundos da criança e da pessoa idosa na declaração de 2026 somaram R$ 419,6 milhões, cerca de 2,5% de um potencial estimado em R$ 16,7 bilhões.

R$ 419,6 milhõesdestinados na declaração de 2026

R$ 16,7 bilhõespotencial estimado

Destinações do Imposto de Renda da pessoa física aos fundos da criança e da pessoa idosa: cerca de 2,5% do potencial. Fonte secundária: levantamento divulgado em agosto de 2026 com base em dados da Receita Federal.

Para dar uma ideia da escala: se metade desse potencial fosse usada para pagar salários e a outra metade cobrisse os custos das atividades, o orçamento pagaria até cerca de 280 mil salários mínimos com carteira assinada, com todos os direitos da CLT, a Consolidação das Leis do Trabalho, durante um ano inteiro. Além de cuidar das comunidades, esse dinheiro criaria empregos nos próprios bairros.

Estimativa: R$ 8,35 bilhões para salários, divididos pelo custo anual de um empregado com salário mínimo de R$ 1.621, somados 13º salário, férias com um terço e os encargos de uma OSC sem certificação de entidade beneficente (CEBAS), cerca de R$ 29,6 mil por ano. Com o CEBAS, que isenta a contribuição patronal, o número passa de 350 mil salários mínimos.

Onde podemos fazer a diferença

Para receber esses recursos, a associação precisa estar apta: estatuto adequado, registro nos conselhos, contas em dia e capacidade de prestar contas. É aqui que podemos fazer a diferença, aprendendo e ensinando a administrar uma OSC.

E as próprias associações podem aumentar o tamanho do bolo. Elas podem fazer campanha entre os contadores e os moradores da comunidade para que mais gente destine parte do imposto aos fundos, e assim sobra mais para as OSCs do bairro.

Uma escola de novas lideranças

Administrar uma OSC é uma formação completa em gestão pública na prática. Quem dirige uma associação aprende a:

Essa experiência forma pessoas preparadas para concorrer a cargos nas câmaras municipais e nas prefeituras, e para exercê-los bem. São gestores com competência comprovada, com histórico de trabalho e com conhecimento das necessidades do lugar onde vivem. Capacitar quem administra OSCs é também abrir caminho para uma nova geração de lideranças locais.

Sejamos nós a mudança que queremos para o Brasil.

Texto de opinião. As regras citadas seguem as fontes oficiais reunidas em Fontes legais e na página Imposto de Renda.